setembro 13, 2010
Solidao contente
O que as mulheres fazem quando estão com elas mesmas.
Ontem eu levei uma bronca da minha prima. Como leitora regular desta coluna, ela se queixou, docemente, de que eu às vezes escrevo sobre “solidão feminina” com alguma incompreensão.
Ao ler o que eu escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão de que as mulheres sozinhas estão todas desesperadas – e não é assim. Muitas mulheres estão sozinhas e estão bem. Escolhem ficar assim, mesmo tendo alternativas. Saem com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe na vida delas. Nessa circunstância, decidem continuar sozinhas.
Minha prima sabe do que está falando. Ela foi casada muito tempo, tem duas filhas adoráveis, ela mesma é uma mulher muito bonita, batalhadora, independente – e mora sozinha.
Ontem, enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha ruim no centro de São Paulo, ela me lembrou de uma coisa importante sobre as mulheres: o prazer que elas têm de estar com elas mesmas.
“Eu gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá com a cachorra nos pés e curtir a minha casa”, disse a prima. “Não preciso de mais ninguém para me sentir feliz nessas horas”.
Faz alguns anos, eu estava perdidamente apaixonado por uma moça e, para meu desespero, ela dizia e fazia coisas semelhantes ao que conta a minha prima. Gostava de deitar na banheira, de acender velas, de ficar ouvindo música ou ler. Sozinha. E eu sentia ciúme daquela felicidade sem mim, achava que era um sintoma de falta de amor.
Hoje, olhando para trás, acho que não tinha falta de amor ali. Eu que era desesperado, inseguro, carente. Tivesse deixado a mulher em paz, com os silêncios e os sais de banho dela, e talvez tudo tivesse andado melhor do que andou.
Ontem, ao conversar com a minha prima, me voltou muito claro uma percepção que sempre me pareceu assombrosamente evidente: a riqueza da vida interior das mulheres comparada à vida interior dos homens, que é muito mais pobre.
A capacidade de estar só e de se distrair consigo mesma revela alguma densidade interior, mostra que as mulheres (mais que os homens) cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem.
A maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. Despeja seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta. Transforma o mundo para se distrair, para não ter de olhar para dentro, onde dói.
Talvez por essa razão a cultura masculina seja gregária, mundana, ruidosa. Realizadora, também, claro. Quantas vuvuzelas é preciso soprar para abafar o silêncio interior? Quantas catedrais para preencher o meu vazio? Quantas guerras e quantas mortes para saciar o ódio incompreensível que me consome?
A cultura feminina não é assim. Ou não era, porque o mundo, desse ponto de vista, está se tornando masculinizado. Todo mundo está fazendo barulho. Todo mundo está sublimando as dores íntimas em fanfarra externa. Homens e mulheres estão voltados para fora, tentando fervorosamente praticar a negligência pela vida interior – com apoio da publicidade.
Se todo mundo ficar em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí, 24 horas por dia, sete dias por semana? Tem de ser superficial e feliz. Gastando – senão a economia não anda.
Para encerrar, eu não acho que as diferenças entre homens e mulheres sejam inatas. Nós não nascemos assim. Não acredito que esteja em nossos genes. Somos ensinados a ser o que somos.
Homens saem para o mundo e o transformam, enquanto as mulheres mastigam seus sentimentos, bons e maus, e os passam adiante, na rotina da casa. Tem sido assim por gerações e só agora começa a mudar. O que virá da transformação é difícil dizer.
Mas, enquanto isso não muda, talvez seja importante não subestimar a cultura feminina. Não imaginar, por exemplo, que atrás de toda solidão há desespero. Ou que atrás de todo silêncio há tristeza ou melancolia. Pode haver escolha.
Como diz a minha prima, ficar em casa sem companhia pode ser um bom programa – desde que as pessoas gostem de si mesmas e sejam capazes de suportar os seus próprios pensamentos. Nem sempre é fácil.
Ivan Martins
É editor-executivo de ÉPOCA
Revista Epoca
Recebi por email da querida, Regina-Maravilhosa
agosto 19, 2009
Livro da Grace Olsson
O livro "Criancas Refugiadas em Mocambique:um drama na África", está capengando", feito seus personagens principais. Muitos blogueiros vieram aqui e enalteceram a idéia de comprar o livro. Alguns, contactaram a Editora, e já receberam o exemplar.
Outros, me escreveram, pediram conta do banco e até agora, nao retornaram. Mas, creio que, brevemente, essas dificuldades vao se dissipar, se eu conseguir colocar o livro em livrarias maiores. Até por que, muitas vezes, nao temos intencao de comprar um livro, mas, uma vez diante dele, uma capa que nos toque, um tema que mexa conosco, nos faz mudar de idéia. Uma coisa é ter o bem diante de nós. E outro é ter um pouco distante. Consegui enviar 50 exemplares para uma Universidade brasileira e 30 para uma organizacao que cuida do tema refugiados em Brasília. Além de alguns blogueiros que compraram mais que dois exemplares. E outros blogueiros – nao posso falar os nomes – que enviaram ajuda aos refugiados. Uma capa que foi muito elogiada por dois jornalistas brasileiros e que, ambos, solicitaram o livro para ler. Na capa, ver-se os pés de um menino congolês com uma mosca pousada sobre a unha. Esse menino perdeu a mae, ano passado. Ela fora assassinada pelo próprio pai. O resultado dessa atitude impensada foi que vivem no Campo, ele, mais 3 irmaos. Entre esses, uma que sofre um problema neurológico irreversível.Veja no que deu tudo isso: a mae morta e o pai enjaulado. Veja o quanto difícil é a vida desses meninos e meninas africanas. Isso me leva a refletir, a explicar aos filhos o que eles têm que muitas outras nao têm. Me faz perguntar, diariamente, para qual caminho anda a sociedade sueca…Uma sociedade em que é evidente o desrespeito da crianca com os mais velhos. Meninos de 4,6,8, 12 anos que ficam cara a cara com um adulto…que eles enxovalham, maltratam. Lembro que eu tinha um carinho enorme por meus avós. Aqui?quem disse que esses meninos e meninas respeitam ninguém? Os filhos do meu vizinho sao terríveis…Outro dia, me deu vontade de dar uns belos tabefes neles. Mas quem disse que posso fazer isso? Iria parar na cadeia. Se fala aos pais, eles fingem que ouvem. Outro dia, a sobrinha de meu marido apareceu aqui em casa com a filha de apenas 5 anos e com os cabelos de tudo quanto é cor. A explicacao para essa loucura?”ela quis e eu deixei…” O resultado é que, você sai na rua, ás 7 da matina, e dar de cara com meninas de 12, 14 anos, com cílios posticos, cabelos coloridos, piercings no nariz, boca, saias curtíssimas, olhar enviesado, que nao dao um bom dia a ninguém, celular nas maos, mascando chicletes de forma vergonhosa, nos jardins a estar agarrados em plena luz do dia. Sabe o que é isso? Sao criados com toda facilidade do mundo… Nao recebem um NAO…Vivem no bem bom…e nem valor dao. Enquanto isso, tanta crianca pobre, vivendo na miséria, por esse mundo afora…Tem horas em que fico sem entender nada da vida….Mas quem disse que eu entendo alguma coisa? O livro custa apenas 22 reais + despesas de Correios. Os blogueiros que vivem no exterior, podem comprar e pagar o livro pelo PAYPAl.Eu tenho conta. Além do que, podem me pedir o livro pelo email grace.sweden@gmail.com ou contacte a Editora. Eu nao tenho tempo como antes, de visitar blogs.
Preciso sentar na cadeira e buscar comprador para o meu livro.
E tenho conseguido vender dessa forma.
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Grace Olsson
agosto 17, 2009
Grace Olsson - Mulher 7x7 - Revista Epoca
Foto de Grace Olsson
...Ele morreu de frio e será cremado hoje. Era jovem, idealista. Mas se embriagou com a Natureza.
Poderia estar entre nós se não tivesse dispensado seu guia, se tivesse consciência da fragilidade humana, se tivesse levado uma bússola, se contasse com o imponderável, se seguisse as regras que aprendeu em anos e anos de escaladas e trilhas.
Gabriel dispensou o kit básico que garantiria sua volta com vida para o Brasil no fim de julho.
Subiu o Monte Mulanje, um pico de 3 mil metros, com uma câmera e um cajado. O tempo fechou de repente (foto).
A morte de Gabriel Buchmann, 28 anos, nas montanhas do Malauí, depois de uma viagem de mais de um ano por 26 países na África, me tocou pessoalmente.
Não o conhecia, mas tenho um filho de 27 anos que olha o mundo da maneira que Gabriel olhava.
Com desejo de melhorar o meio ambiente e contribuir para que o futuro seja menos injusto socialmente. “Eu o chamava de capitão”, diz Pedro Flores, engenheiro, amigo de Gabriel, companheiro de trilhas. “Além de ser um agregador, um inspirador, Gabriel tinha desenvolvido um lado espiritual, que se expressava também na comunhão com a Natureza.
Ele parava para meditar. Quando acampávamos, dormia fora da barraca, na rede, caminhava de pé no chão. Gabriel e nós todos sempre acreditamos na energia que vem da terra, do mar, das árvores, das montanhas. Seus aniversários eram luaus na praia.
Como um marinheiro morre no mar, Gabriel se foi fazendo o que mais gostava na vida: descobrindo outros lugares, outros povos, outras maneiras de viver”...
... Conversei com uma fotógrafa brasileira, Grace Olsson (autora da foto acima), que vive na Suécia, tem um livro sobre refugiados no Moçambique, e conhece 47 países na África. Seu depoimento:
“A neblina cobre tudo quando muda o tempo ali. Ruas, vales, montes, montanhas, não dá para ver nem as copas das árvores.
Um guia teria feito diferença para Gabriel porque ele sempre conhece as saídas estratégicas. Vários turistas já desapareceram nesse monte misterioso.
As tribos do Malauí estão cansadas de acionar os deuses africanos em favor dos desaparecidos.
Fui ao Malauí no ano passado e, à tarde, relampejou tanto embaixo desse monte que eu me tranquei no quarto e rezei, pedindo a Deus que o mundo não se acabasse naquele dia.
As nuvens ficaram cor de chumbo”.
Gabriel dispensou o guia na última hora, para que ele buscasse sua mala no último acampamento.
O tempo estava bom, a Natureza não o trairia. Gabriel era um montanhista experiente, já tinha ido ao Everest e ao Kilimanjaro.
A sete horas de distancia do pico do Mulanje, ele resolveu seguir a trilha sozinho.
Um grupo que descia o aconselhou a não prosseguir porque escurecia. Em chichewa, a língua local, Saptiwa (o nome do pico) significa “não vá lá”.
Era sua despedida do continente africano. Gabriel não queria ir embora sem chegar ao pico do Mulanje. E chegou.
Ruth de Aquino
Saiba mais
Revista Epoca
